Homilia - Quarta Feira de Cinzas

  • Texto por Pe. Manoel
  • 07/03/2019


Nós iniciamos hoje uma caminhada importante para nós, que é a preparação para a celebração da nossa páscoa. É bonito de ver a igreja cheia, é a piedade do cristão que quer vim participar da abertura do início deste momento tão importante para nós que são os quarenta dias de preparação porque indicam algo mais importante, que é a celebração da Páscoa do Senhor.

Vocês sabem meus irmãos que duzentos anos depois da morte de Jesus, os cristãos celebravam anualmente a Páscoa como nós celebramos também. E como eles achavam que era um momento tão importante, tão grandioso esse momento devia ser preparado com muita devoção e muita piedade, e o que eles fizeram?  Fizeram três dias de preparação, era o comum trezentos anos antes de Cristo que se fizesse apenas três dias para se preparem para a celebração.

Eu diria que eles fizeram um tríduo penitencial, era isso que eles faziam no início. Mas eles perceberam que o mistério era tão grande, a grandeza da Páscoa, e que não poderia ser celebrada com apenas três dias de preparação, e aí no ano 335 a Igreja se reúne e discute quanto tempo deveria se preparar para Páscoa do Senhor. Eles pensaram em um número simbólico, e o número simbólico é 40. Porque 40 lembra o período que o povo ficou caminhando no deserto para depois entrar numa realidade grandiosa que era a terra prometida.

Quarenta lembrava também a caminhada de Moisés até chegar ao Monte Horebe, quarenta dias, quarenta noites para se encontrar com o Senhor. Quarenta lembra também os quarenta dias que Moisés passou jejuando, rezando para depois falar com o Senhor no Monte Sinai.
Quarenta lembra os quarenta dias que Jesus passou jejuando e rezando sem comer e sem beber para depois iniciar o seu ministério. E agora o que eles concluíram? Quantos dias serão precisos para que celebremos a ressureição de Jesus, a memória da ressureição de Jesus? É claro que eles chegaram na conclusão de que quarenta seria o número simbólico e perfeito para nos prepararmos.

As três leituras nos dão dicas muito boas para que nós possamos nos preparar durante esses quarenta dias.

Primeira leitura da profecia de Joel. Joel era um profeta do segundo tempo meus irmãos, e ele era profeta e também sacerdote, era um homem que conhecia o culto e rezava diariamente ao Senhor. No seu período ele percebe que uma calamidade que abateu sobre Israel e ele se pergunta: Que tipo de calamidade foi essa? O flagelo, na realidade chegou um bando de gafanhotos e destruiu toda lavoura do povo, e o povo começou a passar fome. E Joel se pergunta: Mas por quê isso está acontecendo?  Será simplesmente uma coincidência de pragas que chegaram aqui?

A resposta dele foi encontrada na fé, o povo se tornou vaidoso, o povo se tornou independente de Deus, o povo se esqueceu de Deus e aí Deus manda esse recado para o povo, que é o recado que Ele manda para nós hoje no início da nossa quaresma. Diz Joel em nome de Deus: “Voltai para mim com todo vosso coração, com jejuns, lágrimas e gemidos. Rasgai o coração e não as vestes”. O que ele quer dizer? Muitas vezes as pessoas voltam para Deus apenas de maneira ritualizada, faz uma penitência formal, faz uma oração formal. Deus quer uma conversão interior, é preciso rasgar o coração, não basta representar o retorno para Deus através de vestes rasgadas ou através de se jogar no corpo inteiro cinzas, isso tem que estar com a consciência interior, o coração deve estar cheio de cinzas, o coração deve estar rasgado, o coração deve estar cheio de lágrimas, porque ele está voltando inteiramente para o Senhor.

Do outro lado ele pede a iniciativa do homem, mas mostra a tolerância de Deus. Voltai para o Senhor vosso Deus porque Ele não é vingativo, Ele não é rancoroso. Quem é o nosso Deus que pede o nosso retorno?  Ele é benigno, Ele é compassivo, Ele é paciente, cheio de misericórdia inclinado a perdoar o castigo, esse é o Deus para quem nós vamos fazer oração e penitência.

Não guardemos em nossa cabeça um Deus que está lá preparado para se vingar de nós, mas imaginemos um Deus igual aquele Pai do filho pródigo, que a todo momento olha a distância para ver se nós estamos voltando para Ele, e a possibilidade é agora, neste início, neste período da quaresma, nos preparando para a Páscoa. É possível sempre melhorar, é possível sempre se tornar um cristão mais autêntico, mais praticante da Palavra de Deus, mais tolerante, mais amável, mais ponderado e mais fiel a Deus e ao irmão. Cada vez mais nós podemos crescer.

Eu diria que no decorrer da idade ou nós aprendemos ou nos tornamos mais viciosos e aí não tem mais jeito. Aí eu acho a condenação se com o decorrer da idade, da maturidade você não vai melhorando, então aí meu irmão só tem que apelar para a misericórdia de Deus, porque eu não sei mais o que pode acontecer. Mas está aqui o chamado de Joel, vocês podem voltar a qualquer momento porque Deus está lá esperando o seu retorno, com benignidade, com compaixão e com misericórdia.

Meus irmãos, então aqui está para nós a chave para nossa quaresma, se nós vamos rezar para um Deus que é compassivo, que é misericordioso, que espera nosso retorno, significa também nós devemos agir com misericórdia, reconciliando entre nós. Temos a dica de São Paulo também, uma dica bonita. Vocês sabem que São Paulo funda a comunidade de Coríntios, mas chega um momento em que o próprio Paulo é expulso da comunidade. Vocês percebem a gravidade da coisa?  Ele é expulso, ninguém tolera mais Paulo falando, bota Paulo para fora da cidade, e olha o recado que Paulo fala para os irmãos: “Meus irmãos porque vocês nos expulsaram daí?  Será que é a Palavra de Deus que nós pregamos que está irritando o coração de vocês em vez de criar uma outra situação, uma conversão?”.

Ele faz um apelo: “Somos embaixadores de Cristo e é Deus mesmo que exorta através de nós e neste Cristo nós o suplicamos deixai nos reconciliar com Deus. Vocês estão nos expulsando da cidade, mas se nós estamos aqui, não é porque queremos, não é no nosso nome, é porque estamos preocupados com a própria salvação de vocês”.

Aí eu vejo por outro lado também a alma do pastor, ele sendo expulso, mas ele não desistindo do povo. A misericórdia de Deus se manifestou na misericórdia do discípulo, do Apóstolo Paulo. Em vez de se irritar com a comunidade, bater, tirar o pó daquela cidade de Coríntios, das suas sandálias, ele faz um apelo em nome de Deus: se vocês escutam a Palavra de Deus através de mim, é o próprio Deus que vocês estão escolhendo, não perca esta possibilidade, deixai vos reconciliar com Deus e nós somos apenas seus embaixadores. Nós estamos falando em nome Dele!

Esta Palavra é também para nós propósito que Paulo está fazendo para nós. Não fechemos o nosso coração, não endurecemos, não vivamos na raiva, no ódio, no rancor, na inveja. Deixemos nos reconciliar com o Senhor e o momento oportuno, o momento favorável é este que nós estamos escutando a Palavra do Apóstolo Paulo.

E por fim meus irmãos ficam as dicas de como nós podemos nos comportar durante essa quaresma, três exercícios que dos quais nos lembramos todos os anos no início da quaresma.

O Evangelho é evidente, não muda é sempre o mesmo, é o que fala sobre os exercícios de retorno para o Senhor. Primeiro a oração, depois junto com a oração a prática da caridade, e depois o jejum. Mas isso entre nós e Deus, sem ostentação.

Vocês sabem meus irmãos que em toda a vida houveram pessoas que gostavam de se exibir, de mostrar que fazem, que são boas. Na época de Jesus haviam alguns, sobretudo na comunidade dos fariseus entre os quais haviam também pessoas santas, mas que gostavam de serem vistos pela sociedade. Então na sinagoga gostavam de sentar no primeiro lugar, gostavam de fazer grandes ofertas na frente de todo mundo para que as pessoas pudessem elogiá-los, gostavam de rezar nas praças públicas, gostavam de fazer caridade, mas que todos soubessem que eles estavam fazendo caridade. É esse tipo de postura que Jesus critica e quer que nós evitemos. A postura da ostentação, da exibição, nossa oração deve ser feita no segredo, entre nós e Deus, pois é Dele que nós esperamos a recompensa. Ele diz que aqueles que fazem dessa forma já receberam a sua recompensa. A recompensa de quem? Dos homens que é algo muito pequeno, melhor mesmo é receber a recompensa de Deus. Então vamos nos colocar na prática desses exercícios para que nós possamos nos salvar e nos preparar para Santa Celebração da Páscoa.

Não vamos nos esquecer da oração, se já temos o hábito de rezar, esse período da quaresma é o período de intensificar mais ainda a oração. Mas não precisamos dizer para as outras pessoas que estamos rezando todos os dias, é para Deus que nós oramos e não para o homem.

Se nós já temos o hábito de fazer a caridade, se temos o hábito de jejuar, vamos intensificar mais ainda no período da quaresma. Agora o jejum não pode ser desvinculado da prática da caridade, se não ele se torna algo meramente formal. Deus não quer que nós mortifiquemos por nada. A nossa mortificação, o nosso esforço, é para fazermos em prol das outras pessoas.

Eu me lembro do Papa Leão Magno que dizia se você está jejuando, calcule o que você está economizando com seu jejum, aquilo que você não usou em prol de si mesmo, e esse sacrifício que você fez passe para outra pessoa, para que ele possa passar esse dia bem as custas do seu sacrifício, do seu esforço. Além do mais o jejum também nos ensina a controlar os nossos impulsos, nos ensina a nos disciplinarmos, a não darmos vazão as nossas paixões. O jejum é o controle de nós mesmos, nós queremos comer, mas vou mostrar que não vou comer agora, estou fazendo um esforço em prol da outra pessoa. Quero beber, mas não vou beber agora, porque é o esforço que eu estou fazendo, eu controlo as minhas vontades. É mostrar que nós somos donos de nossas vontades e não são as nossas vontades que mandam em nós, mas fazendo sobretudo isso em prol da outra pessoa. Cuidado para não cairmos no jejum mortificante, sem sentido nenhum, apenas no sofrimento masoquista, se eu posso dizer desta forma, sofrer por sofrer. Deus não quer que ninguém sofra, Deus quer que sejamos felizes, mas se nós sofremos, que soframos pelas outras pessoas. Façamos isso em prol do outro e aí nós mostramos que nós temos de fato fé e piedade com relação a Deus.

Que esse tempo seja favorável para nós, que nós possamos chegar na Páscoa mais santificados, mais cristãos, é o que nós pedimos na abertura da nossa quaresma celebrando a quarta-feira de cinzas.

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