Homilia - 1º Domingo da Quaresma

  • Texto por Pe. Manoel
  • 11/03/2019


Meus irmãos estamos no início da nossa Quaresma, hoje celebrando o primeiro domingo da Quaresma.

Abrimos a nossa Quaresma na quarta-feira de cinzas impondo em nossas cabeças as cinzas em sinal de Penitência. A igreja recomenda meus irmãos, que nesse período nos dediquemos mais a oração e também a Penitência, ao jejum. Devemos fazer a experiência que Jesus fez no deserto para nos prepararmos para a Páscoa.



Na realidade, posso dizer para vocês que a Quaresma é esse período de deserto no qual nós nos preparamos para celebrar o Cristo ressuscitado. E é o modelo de nossa oração ou modelo de nosso deserto, de nossa Penitência para superarmos as nossas fragilidades, as tentações, as nossas vontades e impulsos para o mau, o modelo é Jesus.

Nós temos aqui, o Evangelho de Lucas que apresenta Jesus no início do seu ministério.

A primeira coisa que Jesus faz no início do seu ministério, foi ir para o deserto. A experiência do deserto para Jesus é uma forma de provação, para ver se de fato Jesus está preparado para servir a Deus plenamente.

Antes de nós fazermos alguma coisa importante, nós também devemos nos colocar em provação, para ver se nós estamos preparados. Devemos rezar como Jesus fez e experimentar nas nossas fraquezas se nós estamos preparados para enfrentar as dificuldades futuras, devido a decisão que nós tomamos.

Lucas apresenta um dado interessante, ele diz que Jesus voltou do Jordão e Ele estava cheio do Espírito Santo, naturalmente meus irmãos.  No Jordão Jesus foi batizado por João Batista, o espírito santo desceu sobre Ele. Então, de fato Ele recebe no batismo o Espírito Santo como nós também, no nosso batismo nós recebemos o Espírito Santo, e guiado pelo Espírito Ele vai para o deserto para passar pela sua prova de fogo.

Jesus está preparado ou não para servir a Deus plenamente? Será que Ele vai superar as dificuldades do deserto? A superação das dificuldades no deserto, a superação das tentações prova de fato que Jesus é o filho de Deus, que Ele serve Deus plenamente e que Ele cumpre toda a palavra de Deus.

No deserto, a primeira tentação é apresentada a Jesus. Ele está lá 40 dias sem comer, é um período importante para as provações. Podemos até lembrar o que eu dizia na quarta-feira de cinzas, os 40 anos que Moisés passou no deserto, mas também dos 40 dias que Elias caminhou em direção ao Monte Horebe para se encontrar com Deus.

Jesus aqui vai fazer algo especial, Ele vai servir a Deus, Ele tem que passar por essa provação. É interessante o que o Evangelho diz, Ele não comeu naqueles dias e o diabo se apresenta para Ele:  “Sé és filho de Deus manda que estas pedras se transformem em pão!”.

Vejam, meus irmãos, o diabo sabe aonde colocar as suas peripécias. Se Jesus está com fome, onde é que esta aí a fraqueza de Jesus? Exatamente na vontade de comer, e quando nós estamos com fome, comemos até pedra mesmo antes que ela se transforme em pão.

O diabo vai dizer: “Olha, então é aí que eu vou pegá-lo... na sua fraqueza”.

Isso aqui é um aviso para nós! Nós devemos nos examinar, observar quais são as nossas fraquezas. Qual é o ponto fraco que eu possa ser tentado pelo diabo?

Tem pessoas que muitas vezes meus irmãos, elas são autossuficientes, e não tem a autocrítica, elas acham que não têm fraqueza alguma, e quando não conhecemos as nossas fraquezas, mais estamos vulneráveis as tentações. Para superarmos as fraquezas, a melhor coisa é que nós saibamos quais são elas para que possamos trabalhá-las. Jesus sabia, Ele estava fazendo de bom grado o seu jejum, então satanás se apresenta: “mande que esta pedra se mude pão!”.


Qual é a resposta de Jesus?
“Muito bem, vontade de comer eu tenho, fome eu tenho, mas a fome de ouvir a palavra de Deus, a fome de obedecer a Deus é muito maior do que minhas vontades!”.

E aí está grandeza de fazermos o jejum, a penitência, é termos o controle de si mesmo.

Jesus mostrou aqui um autocontrole de si mesmo, Ele poderia ceder às suas vontades, mas Ele diz: “A minha vontade de cumprir a palavra de Deus é superior as minhas fraquezas, as minhas vontades carnais”.

Ele cumpria aqui a palavra de Deus ou Ele sucumbia as suas vontades carnais. Do que adianta alimentar o corpo e o Espírito ficar sem o alimento? Preferiu Ele, alimentar-se da palavra de Deus, por isso a resposta Dele é com a palavra de Deus, com a escritura que Ele combate à tentação.

Na escritura diz: “Não só de pão vive o homem”, e Mateus acrescenta “não só de pão vive o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus”. Prefiro obedecer a Deus, a ceder as minhas vontades carnais.

Meus irmãos, eu queria dizer para vocês que essa tentação se apresenta a nós cotidianamente. Na realidade a tentação do pão é a tentação da matéria. Quantas pessoas abandonam a Deus por causa da matéria, do dinheiro, o pão aqui representa todos os bens materiais que muitas vezes nos afastam de Deus, quanto mais temos, mais nos achamos autossuficientes, e achamos que não precisamos de Deus.

Jesus refuta: “eu não renego o bem, eu vivo da palavra de Deus”. O diabo não se deu por contente, poderia ter parado por aí, ele vai procurar uma outra fraqueza, então levou Jesus para o alto e mostrou todos os reinos do mundo, todos os poderes e ainda fala para Jesus: “Se me adorares, então te darei todo este poder”.

Meus irmãos, quem é que não gosta do poder? Eu diria a vocês que o poder é tentador. Nós somos confrontados todos os dias então com essa tentação do poder, é preciso que estejamos vigilantes como Jesus, muitas pessoas por causa do poder pode adorar até o diabo, vender a sua alma ao diabo, fazer qualquer coisa.

Jesus também combate essa tentação com a escritura, com a palavra de Deus. Está escrito: “Adorarás somente o Senhor teu Deus e a Ele prestarás culto”.

Eu não vendo a minha alma pelo poder de Jesus, e aí eu faço uma observação para vocês, tomem cuidado, amanhã vocês vão chegar no ambiente de trabalho, essa tentação pode se apresentar a vocês, alguém que vai dizer: “olha faça isso ou aquilo, eu te pago mais ou então eu te promovo...” subornando você... É que na realidade o diabo tentou subornar a Jesus.

Nós crescemos na vida meus irmãos, através do nosso esforço, do nosso trabalho, da nossa consequência. O poder deve ser fruto do serviço, da capacidade que nós temos de servir as outras pessoas, ele não pode vir de um benefício extorquido e não pode ser fruto de um suborno, ele não pode ser fruto de tratados escusos. Aqui é o que o diabo queria propor a Jesus, subornar Jesus através do poder.

Vocês acham que isso não aparece para nós também? Quantas vezes as pessoas vêm com propostas de suborno para que a gente possa ser promovido. As custas de satanás nós não devemos nos deixar ser promovidos, mas sim as custas do serviço, da capacidade de servir as outras pessoas. Fiquem atentos, no ambiente de trabalho essa tentação aparece cotidianamente, mas também em outros lugares, nas transações, no relacionamento com as outras pessoas, e as pessoas famintas do poder não superam esse tipo de tentação.

O diabo poderia ter parado por aí, mas ele vai procurar uma outra fraqueza de Jesus, e qual é a terceira tentação? Ele leva Jesus para a parte mais alta do templo em Jerusalém e fala para ele: “Bom, já que você se mostra o filho de Deus, servidor de Deus, protegido por Deus, lança-te daí para baixo. Se de fato Ele é Deus e tem poder Te salvar, Ele vai enviar os anjos”. O diabo até cita as escrituras, Ele vai enviar seus anjos para Te salvar. E a resposta de Jesus: “Está escrito, não tentarás o Senhor teu Deus”. Essa é uma tentação também que é cotidiana, e pode se apresentar. Tentar o nosso Deus em circunstâncias difíceis!

Até lembrei de manhã, eu acho que eu já contei para vocês também, mas é bom lembrarmos outra vez.

Uma vez quando estava na França, era estudante ainda, fui visitar um colega meu que era belga, e aí ele havia acabado de perder um sobrinho. E daí ele me disse: “mas você de fato vai ser Padre? Você acredita em Deus? Pois é, meu sobrinho que era alpinista estava escalando uma montanha, descambou de lá de cima, espatifou-se no chão e ficou lá, morreu na hora.  Minha irmã está revoltada, e eu também me sinto revoltado. Se Deus existisse Manoel, será que ele permitiria uma coisa dessa?”.

Mas aí você está fora de razão, o teu sobrinho foi lá com 20 anos em plena Liberdade e ele assumiu os riscos do esporte que ele estava fazendo, ele estava na liberdade dele, Deus vai intervir na liberdade da pessoa? Ele estava lá, ele sabia que era arriscado. Se você se expõe ao risco assuma as consequências do risco. Então, nada tem haver com a existência de Deus ou não, ele não interfere na nossa liberdade.

Muitas famílias que passam por momentos difíceis perdem a fé também porque tentam o Senhor nosso Deus. “Se Deus existisse, porque estou passando por essa dificuldade?”.

Meus irmãos, nós vivemos numa limitação. Aqui neste mundo nós somos limitados, somos sujeitos a doenças, somos sujeitos a acidentes. Nós vamos estar livres de tudo isso quando nós estivermos em Deus, é para lá que nós caminhamos, mas, aqui nós estamos sujeitos a qualquer tipo de sofrimento e sofrer com Deus é muito melhor do que sofrer sem Ele.

Nós vemos outros testemunhos iguais ao de Jesus também, de pessoas que na dor do sofrimento não tentam a Deus, mas se consolam com Ele, se apegam a Ele, e alguns seguem serenamente confiante de que a limitação do corpo, a morte, não é uma vitória sobre o homem. A vida perdura para lá do corpo e ele vai para perto de Deus.

Então é Jesus refuta isso dizendo para Satanás: “Não, eu não vou tentar o Senhor meu Deus, eu não imponho condição para acreditar em Deus”

Exigir alguma coisa de Deus para ter fé é como se nós estivéssemos impondo condições para acreditar, a fé deve ser um dom gratuito, nós sentimos a proteção de Deus e ponto final. Não temos que colocar Deus a prova, Jesus jamais duvidaria de Deus.

Em todo caso, uma coisa é bem clara para nós meus irmãos, nessas tentações de Jesus. Se nós quisermos enfrentar as tentações do dia-a-dia, é preciso que nós façamos igual a Jesus, que nós nos agarremos na palavra de Deus, que nós escutemos a palavra de Deus. Quanto mais escutamos a palavra de Deus, mais fugimos da vulnerabilidade diante de satanás, nos tornamos fortes para enfrentar as dificuldades, as ocasiões difíceis na nossa vida. Portanto, está aí a receita dessa Quaresma. Rezemos mais, leiamos mais a palavra de Deus e vivamos mais da palavra de Deus do que das coisas materiais. Que a palavra de Deus seja o nosso guia nessa caminhada quaresmal.

Assim seja, amém!

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